domingo, 3 de agosto de 2008

Fernando Pessoa

Mas o que é o próprio homem senão um inseto cego e inane zumbindo contra uma janela fechada? Instintivamente pressente, para além da vidraça, uma grande luz e calor. Porém é cego e não pode vê-la; nem pode ver que algo se interpõe entre ele e a luz. Por isso esforça-se atabalhoadamente por se aproximar dela. Pode afastar-se da luz, mas não consegue chegar mais perto desta do que a vidraça o permite. Como irá a ciência ajudá-lo? Pode descobrir a irregularidade e as protuberâncias próprias do vidro, constatar que aqui é mais espesso, ali mais fino, aqui mais grosseiro e acolá mais delicado: com tudo isso, amável filósofo, até que ponto se aproxima da luz? Até que ponto esta mais perto de ver? E todavia acredito que o homem de gênio, o poeta, consegue de algum modo atravessar a vidraça e sair para a luminosidade exterior; sente calor e satisfação por ter ido tão mais longe do que todos os homens, mas mesmo ele não continua cego? Estará mais próximo de conhecer a verdade eterna?

Deixe-me levar a minha metáfora um pouco mais longe. Há alguns que se afastam da vidraça para o lado errado, recuando; porém, ao darem consigo longe dela gritam em redor, “Já a atravessamos”.

O texto acima é de autoria de Fernando Pessoa; do livro “Escritos autobiográficos, automáticos e de reflexão pessoal”.
O texto dispensa comentários.

A literatura nos permite de algum modo atravessar a vidraça e sair para a luminosidade exterior. Como o poeta do texto de Pessoa.

O homem precisa de mais caráter e menos religião. O homem não precisa de fé. A fé conforma.

Um comentário:

José Edimilson de Oliveira disse...

O texto é poético e filosófico. Percebo o quanto faz falta o hábito de leitura,e sobretudo de cultura na rotina das pessoas. Embora em nosso país, conhecimento é coisa de gente rica,porque o pobre vive excluído de tudo. A escola pública não forma e não educa, justamente porque o rico não está lá. Então não dá para entender o que se passa além da vidraça. Qunato a fè, também acho mal deslocada, porque sua função não deveria ser de conformidade e sim de auto-afirmação.